Um olhar da presa e não do caçador
Hegel, a coruja e a criseCorreio Popular  Hegel afirmou que a coruja, símbolo grego da sabedoria, é ave que só levanta voo ao anoitecer, quando os fatos já sedimentaram. Assim, só entendemos plenamente certos fenômenos a partir da perspectiva criada pelo tempo, depois que eles se tornam as “lições da história”. Tal afirmação é particularmente verdadeira para as crises, que são complexas e de natureza volátil. Nesses casos, assim como nos casos dos acidentes da aviação, surgem inúmeras hipóteses que tentam explicar os nebulosos acontecimentos. Mas, até que se encontre a “caixa-preta”, na noite da sabedoria, tudo é hipótese. Contudo, acredito já ser possível se identificar algumas tendências, ainda que pouco claras. A primeira tange à inflexão criada na reunião do G20 em Londres. Conseguiu-se fazer o que não foi feito em 1929. As lideranças mundiais demonstraram coesão e propuseram substanciais medidas para o enfrentamento global da recessão. Recuperou-se parcialmente a confiança perdida, passo inicial muito importante para reverter o pânico. Contudo, é preciso considerar que EUA, União Européia e Japão, as principais economias mundiais, foram muito afetadas pela gigantesca bolha financeira especulativa que desencadeou a crise. Persiste ainda um buraco negro de ativos “tóxicos” que amedronta investidores, gera incerteza e impede o soerguimento do crédito. A tendência de recuperação parcial da confiança crida no G20 encontra, por conseguinte, formidável obstáculo para a retomada do crescimento nas economias avançadas. Outro grande obstáculo se refere ao grave problema dos déficits públicos criados para estimular as economias. Nos EUA e na União Europeia tais déficits chegam a cerca de 26% do PIB, se incluirmos no cálculo as garantias bancárias. Há ainda o fardo referente ao enfrentamento dos desequilíbrios estruturais que conduziram à crise, particularmente o da queda de competitividade em setores estratégicos, como o da indústria automobilística, cerne histórico do capitalismo norte-americano. O caso da GM, agora “Government Motors”, é emblemático. Assim, a tendência é que esses países passem uma recuperação longa. China, Índia e Brasil e outros países emergentes estão em situação bem mais cômoda. São países que não tiveram seus sistemas financeiros muito expostos à bolha especulativa e que entraram tardiamente na crise. Tendem, portanto, a enfrentar melhor a recessão e a se colocar em situação vantajosa no cenário pós-crise. Tal afirmação é particularmente verdadeira para o Brasil. De fato, nosso país recuperou a capacidade de implementar políticas anticíclicas e podemos, hoje, reduzir juros e carga tributária e aumentar gastos, sem comprometer o equilíbrio macroeconômico. Ademais, o Brasil tem vantagens comparativas, em relação a outros emergentes. Nosso agronegócio é poderoso vetor econômico, no quadro atual de desequilíbrio estrutural entre oferta e demanda de alimentos que mantém elevados os preços das commodities agrícolas, mesmo na crise. Além disso, produzimos energias renováveis em abundância e, em breve, seremos exportadores de derivados de petróleo. Entretanto, a principal vantagem do Brasil é o nosso recente padrão de crescimento baseado na distribuição de renda. Com efeito, programas como o Bolsa Família e do aumento real do salário mínimo ajudaram a retirar milhões da miséria e contribuíram para gerar novo ciclo de desenvolvimento centrado no mercado interno. Recente pesquisa do IPEA demonstra que, entre outubro/2008 e março/2009, já em plena crise, cerca de 316 mil pessoas deixaram a pobreza nas cidades brasileiras. Essa “âncora social”, marca do governo Lula, mostra-se vital para o enfrentamento da recessão. Também é vital a nossa política externa, que aumentou o protagonismo do Brasil. Ela agora conflui com a política externa dos EUA, como ficou demonstrado na revogação da suspensão de Cuba da OEA. Sinal da tendência da gestação histórica de um mundo menos assimétrico e mais cooperativo. Acho que a coruja de Hegel, mesmo antes de levantar voo, já enxerga um Brasil maior. Aloizio Mercadante, economista e professor licenciado da PUC-SP e da Unicamp, é senador da República pelo PT-SP.
Escrito por Tato às 00h03
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